Ser ou não ser pai? Eis a questão.

Há muito muito tempo, ainda as torres gémeas estavam de pé, eu tinha um sonho muito claro e sucinto.
Ter dinheiro suficiente para comprar uma carrinha, casar com uma linda mulher e ter 5 filhos.

A carrinha seria uma Bedford de cor vermelha e caixa aberta para carregar pás, enxaidas, baldes e até estrume, porque eu ia ser um lavrador forte e trabalhador como o meu pai e os meus tios.
A minha esposa iria ser a Bruna, a miúda mais gira da turma. 
Ainda me lembro do dia em que começamos a namorar.
Rasguei um canto a uma folha quadriculada do meu caderno de matemática, escrevi “Queres ser minha namorada?”, pedi á Lilia, a melhor amiga dela, para lhe passar o bilhete e minutos mais tarde recebi-o de volta com o quadradinho do “Sim” assinalado.
Nunca nos beijamos e mal demos as mãos no recreio, mas o contrato já estava assinado. Isso e os olhares durante as aulas eram intensos.
 

Quanto aos filhos, também tinha objetivos bastante específicos.

Iam ser todos rapazes e iam nascer todos de seguida.
A razão para serem só machos era por eu uma vez ter lido que havia mais mulheres do que homens neste mundo, e eu queria ter uma vida o mais equilibrada possivel.
Depois, queria que nascessem todos de seguida para que não sofressem o que eu sofria com o meu irmão.
O Daniel, que é mais novo que eu 5 anos, nunca tinha tanta força como eu para brincar aos Power Rangers (andar à porrada) nem era inteligente o suficiente para jogar às escondidas (tapava os olhos ou encostava-se a uma parede).
Além disso, o raio do moço estava sempre a cair, a rachar a cabeça e depois chorava como um desalmado até a minha mãe chegar e encher-me de porrada por “magoar o menino que ainda é pequeno”.

Mãe, o burro caía sozinho!

Concluí então que, quando a diferença de idades é grande, não dá para brincar com os nossos irmãos.
E era óbvio que não queria nada disso para os meus filhos. Tinham de ser seguidos a nascer.
Por fim, também já tinha nomes para todos.
Rafael, Renato, Ricardo, Rodrigo e Rui.
Porquê? Para na escola poderem  ser chamados de “Família Ra Re Ri Ro Ru”.
Porquê? Porque eu tinha seis anos e achei graça à ideia, malta. Dêem-me um desconto.
Em minha defesa, se esta brincadeira se realizasse mesmo, era certinho que iam ser todos vítimas de Bullying e isso ia fazer deles verdadeiros homens.
Se isso não é ser um bom pai, não sei o que é.
Este sonho era simples na minha cabeça. 
Ser pai parecia ser uma tarefa simples e divertida.
Até fazê-los era fácil, pensava eu.
Era só preciso dar um beijinho na mulher, esperar nove meses e no final ela dava um arroto numa sala especial do hospital e a criança caia-lhe nos braços, limpinha e a dormir profundamente.
Por isso é que nunca beijei a Bruna. Não queria engravidá-la tão novo.
 

Anos passam. E eu descubro que ter filhos não é tão fácil assim.

Quando soube nas aulas de educação sexual, e mais tarde aprofundando conhecimento nas ondas da internet, que no dia do parto uma mulher passa horas em sofrimento, com contrações, dores de costas, cólicas, diarreia, e no fim tem de ser quase rasgada a meio para uma cabeça do tamanho de uma meloa poder sair daquele que foi, durante anos, o buraquinho da felicidade, decidi que só queria ter filhos se ela também os quisesse. Afinal de contas, sou um feminista em construção.
 

Mais anos passam e a vontade de ter filhos vai diminuindo.

Por vários motivos:
  • A enorme responsabilidade que é manter um ser vivo, feliz e sem traumas para o resto da nossa vida.
    PARA O RESTO DA NOSSA VIDA!
  • Ser obrigado a dizer que é lindo/a, inteligente e o/a melhor filho/a do mundo, mesmo que seja feio/a e tenha trissomia 21.
  • Ter de o/a alimentar, limpar, educar, amar e no fim ainda ter de ouvir “Odeio-te! O namorado da mãe é que é um verdadeiro pai para mim!” e aguentar tudo com um sorriso na cara.
  • Saber que o ser humano é a principal razão de o Aquecimento Global existir. E que trazer mais humanos para este mundo só piora a situação. Não pode ser! Afinal de contas, sou um ambientalista em construção.
Chegando ao fim da casa dos 20, concluí, para grande desgosto do meu jovem eu, que não quero ser pai.

Ponto final. Parágrafo. Decisão tomada. Não se fala mais nisso!

 

Mas…? Espera… O que é que se está a passar?

Oh não! O meu instinto paternal está a dar de si.

Não devia ter bebido tantos iogurtes líquidos ACTIVIA durante estes anos todos!
(Se calhar estou a confundir relógio biológico com relógio intestinal. Prossigamos.)
Pois é! Fiz 30 anos e como prenda recebi uma estranha vontade de ser pai. Não dá para explicar, mas agora sempre que faço sexo desprotegido e ela me diz “Estou com o periodo atrasado!” eu já não entro em pânico como antigamente e até esboço um sorriso de “E se?”.
A biologia é mesmo lixada. Posso ter mil e uma razões racionais, justificativas ou até egocêntricas para nunca ter um Mini Me.
Mas a Mãe Natureza leva sempre a dela avante.
Dito isto, se algum dia serei ou não pai, só o tempo o dirá.
Só me resta deixar uma mensagem para o meu futuro rebento, não vá o diabo tecê-las e ele ainda lê as porcarias que escrevo:
“Olá, filho. Espero que estejas bem, meu pequeno lutador. 
Quero aproveitar este momento para te pedir que me perdoes.
Que me perdoes por ter ido comprar tabaco e nunca mais ter voltado, deixando a tua mãe a tomar conta de ti sozinha.
Podes não acreditar, mas fi-lo por amor a ti!
Para que cresças revoltado, usando a raiva resultante desses daddy issues como combustível e tornando-te assim o mais forte dos homens que este mundo já viu!
Só assim é que te tornarás um CEO de uma Multinacional de sucesso ou o Lider da Rebelião Contra os Robôs Assassinos da Humanidade, conforme o futuro onde te encontres.
Um beijinho do teu papá que te ama muito.”

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