Meritopia – Uma Terra sem Cunhas

Era uma vez um sapateiro dono de uma sapataria
Onde se vendiam os melhores sapatos de toda a freguesia.
Mas só vendia sapato raso, nenhum deles tinha cunha
E mesmo que pedissem ao sapateiro para pôr, ele não punha.
Esta doutrina era típica de uma terra imaginária
Onde vivia o sapateiro e uma comunidade igualitária.
A mesma oportunidade para todos, não havia gente favorecida.
A única forma de sucesso era subindo a pulso na vida.
Só habitavam os melhores na terra de Meritopia.
Todos eram doutores da sua arte, nesta democracia.
Singrava o trabalho e o talento, nunca ganhava a ralé.
O único factor que importava era o X e não o C.
Mas não há bela sem senão, Meritopia tinha um problema.
Embora fosse uma terra justa, isso cegava-lhe o sistema.
Quem lá morava tinha de se reinventar constantemente,
Caso contrário era substituído por outro facilmente.
Corriam sozinhos, pois não podiam depender de favor.
Além disso, corriam em vão porque há sempre quem corra melhor.
Andavam todos exaustos e sem tempo para outros planos.
O único emprego que valia a pena era administração de recursos humanos.
No fundo, o que eu quero com tudo isto dizer
É que “cunha” não significa apenas “abuso de poder”
Também significa “confio na tua capacidade”
Afinal de contas, somos apenas pessoas a viver em sociedade.
E tal como os grande filósofos e pensadores dos tempos antigos
Acabei por não chegar a conclusão nenhuma, meus amigos.
Só sei que o sapateiro trabalha melhor nas suas sapatilhas
Quando tem o objetivo extra de deixar legado às suas filhas.

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