2021: Uma odisseia num espaço confinado

Este texto foi escrito com a ajuda de meia garrafa de vinho tinto.Se queres escrever como o Pessoa e os seus amigos, bebe primeiro uma garrafa de Papa Figos.

 

O ano era 2020.

O ano da pandemia, onde toda a gente confinou, se adaptou às palavras “atípico” e “assintomático” e onde muitos perderam os seus empregos e entes queridos.
O ano dos protestos contra tudo. Contra o racismo, contra as votações presidenciais e contra as próprias vacinas, que se diziam serem a nossa salvação mas “agora afinal parece que não.  É só uma artimanha para nos meterem chips no cérebro e comerem os nossos bebés”.
O ano das 1001 mortes de celebridades. Se fossem só os milhões de seres humanos de classe trabalhadora até estava tudo bem, mas levarem-nos o Maradona e o James Bond é que não pode ser.
 
Até tivemos um ano marcado por um tal de Ventura, que anda aí a extremar a torto e à direita (Bom trocadilho, Mário).
Enfim, foi para muitos um ano para esquecer.
 
Mas eu não fui abaixo! Não senhor!
Porque sou bom português. E como bom português, sou grande apologista do provérbio “Pimenta no cú dos outros para mim é refresco”.
 
Ano da pandemia? Não senhor, para mim foi um ano de alegria!
 
Consegui continuar a trabalhar normalmente enquanto Artista VFX de um filme de alto calibre e sem me baixarem o ordenado sequer, tornei-me agenciado pela Chorar de Rir graças ao meu imenso talento humorístico, concretizei um sonho de 10 anos que consistia em comprar a minha própria habitação e, no meio de tudo isto, eu e a minha família conseguimos escapar entre os pingos da chuva à Covid 19.
 
Estava tão confiante da minha boa sorte que até dei o nome de “Corona” ao gatinho novo que nasceu lá em casa.
“O Corona já correu a casa toda! Ah ah ah!” – gozavamos nós.
 
E acho que foi este trocadilho de merda que fez com que o Universo se sentisse insultado e decidido a dar-me uma lição de humildade.
 

O ano agora é 2021.

E com ele vêm perspectivas de uma nova esperança mundial.
Nova vacina contra o bicho prestes a entrar no mercado e o Tino de Rans como candidato a presidente. O que é que pode correr mal? 
Ainda por cima se lá em casa as coisas já estavam a correr bem, só podem melhorar, certo?
 
Na minha primeira semana do novo ano dão-se os seguintes acontecimentos, respetivamente e por ordem cronológica:
 
  1. mudo-me para o novo apartamento;
  2. minha mãe faz uma operação delicada, deixando-a frágil e a necessitar de muito repouso em casa;
  3. meu pai acusa positivo a SARS-CoV-2, tendo de se isolar em casa junto da minha mãe em estado frágil;
  4. eu faço o teste, porque estive com o meu pai, e acuso igualmente positivo;
  5. meu pai é hospitalizado com pneumonia em ambos os pulmões e minha mãe acusa positivo ao bicho no mesmo dia, ficando assim ainda mais frágil e simultaneamente preocupada com o estado de saúde de meu pai;
  6. eu fico preso no novo apartamento, que ainda não tem internet instalada, sozinho e entrando numa mini paranóia resultante do pensamento de existir agora a média probabilidade de perder os meus pais para o vírus, perder o emprego devido à falta de trabalho, ter um apartamento e novas contas para pagar e um irmão para tomar conta. Tudo isto em três tempos e em simultâneo. 
 
Se eu fosse gaja, teria até chorado.
 

Pronto, Universo. Ganhaste. 

Já tenho a pimenta no meu cú e arde para caralho.
 
Neste momento, enquanto vos escrevo, encontro-me a fazer riscos na parede à espera do dia em que possa sair em liberdade, para poder visitar os meus pais e voltar ao trabalho.
 
Mas enquanto espero que passem os 10 dias, vou-me entretendo:
 
Já gastei mais de 30 euros em dados de telemóvel.
 
Já arrumei e limpei a casa duas vezes. Planeio limpar uma terceira este fim de semana, e no final do dia beber outra garrafa de vinho tinto, tal como uma dona de casa dos anos 50.
 
Já ouvi tantas vezes “Vais ver que vai ficar tudo bem” que a frase já perdeu o significado. Respondo sempre com um emoji arco iris.
 

Já li um livro de auto-ajuda.

SPOILER ALERT: Morrem todos no fim.
 
Já rapei o corpo todo na banheira. À excepção da barba e cabelo, claro. A minha cara ainda é o meu ganha pão.
 
Já tentei encomendar uma pizza pela glovo, mas não consegui. Por isso fiz uma sande de ovo cozido com manteiga, que também enche a barriga e não faz tão mal.
 
E já decidi em quem vou votar. Ana Gomes.
Sempre fui fã do Herman Enciclopédia.
 
É nestas alturas que me lembro sempre na frase preferida do meu pai: “O que hoje é verdade, amanhã é mentira”.
A primeira vez que me disse isto, prometeu também que me ia comprar uma bicicleta no dia seguinte.
 
Mas pronto não vale a pena desesperar.
Agora é esperar que a viatura acabe de capotar e só depois é que faço contas aos estragos.
 
E também há que ver as coisas pelo lado positivo.
Caso a minha empresa entre em lay-off devido ao novo confinamento e o meu pai não sobreviva à doença, vou pegar no dinheiro todo que tenho e investir em câmaras e microfones para ser um Youtuber ou podcaster de sucesso.
E depois, quando isso não funcionar, vou comprar uma guitarra acústica e tocar músicas do Nuno Norte para a avenida dos Aliados como o homem livre e sem preocupações que sou.
(É só uma piada, pai. Não morras, que eu e o Daniel não somos bons com partilhas!)
 
Não será um ano de todo fácil para ninguém. Vai doer.
Mas todos os Grandes passaram pela sua “travessia no deserto” e no fim saíram sempre mais fortes.
 

Há que enfrentar o futuro com força e sem medos. 

 
E também já aconteceu tudo de mau que havia para acontecer. O que é que pode acontecer mais? 
(CATRAPUM, caiu-me um piano em cima!)
 
 No ano passado até escrevi uma música a prometer que rebentava com 2021. E agora vai ter mesmo de acontecer, porque não sou de fugir a promessas.

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